sábado, 12 de janeiro de 2013

    2ª LIÇÃO DA ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL DO 1º T. 2013

O PROFETA ELIAHU

No final de cada Yom Kipur, nas sinagogas ao redor do mundo, sete vezes os fiéis repetem “O Eterno é D’us!” (Hashem Hu Haelokim). São as mesmas palavras usadas no Monte Carmel por Israel, após ter testemunhado o profeta Elias trazer fogo do céu para derrotar os sacerdotes da idolatria.
Elias, o Tishbite, ousado e passional, é um dos profetas de personalidade mais forte, uma das figuras mais poéticas da história judaica. Depois de Moisés, é o maior e o mais venerado entre nossos profetas. Eliyahu ha-Navi, como passou a ser chamado, é o profeta da Redenção final do povo judeu; é ele quem, um dia, irá 

Segundo a tradição, Eliahu ha-Navi está presente em cada circuncisão para testemunhar o cumprimento pelos filhos de Israel da Aliança Sagrada.anunciar a vinda do Messias. A cada fim de Shabat repetimos esta crença pedindo-lhe para “vir com presteza, em nossos dias... junto com o Messias, filho de David, para nos redimir”.

A vida e os milagres de Eliyahu ha-Navi estão relatados no Livro dos Reis e no Midrash. Homem de exuberante força física, cabelos longos e voz poderosa, enfrentava os reis dirigindo-se a eles com palavras duras que ordenavam e exigiam. Severo, não aceitava compromissos ou fraquezas, muito menos injustiças.

Elias é o profeta da verdade e sua palavra era verdade. “A palavra de D’us está em sua boca”, está escrito na Torá. Sua palavra podia parar ou trazer a chuva. Todas suas profecias se cumpriram, inexoravelmente. Trouxe para a terra o fogo do céu. Ressuscitou um jovem. Dedicou sua vida ao Eterno lutando contra a idolatria e as injustiças cometidas por poderosos. Sua principal missão era assegurar o futuro de Israel como nação monoteísta.

O nascimento assim como o fim da vida de Eliahu estão envoltos em mistério. Segundo a Torá, ao deixar o mundo dos vivos, o profeta não desaparece como um comum mortal, mas sim numa carruagem de fogo que o leva aos céus. Mesmo depois de seu desaparecimento, suas missões continuam tanto nos Céus, onde se torna o eterno e incansável defensor do povo de Israel, como na terra, para onde volta para socorrer os necessitados. Eliyahu ha-Navi volta para nos lembrar que sempre temos direito à esperança. O profeta Elias, que surge no Livro dos Reis, parece diferente daquele que o Midrash retrata. No primeiro, ele é o vingador zeloso; no segundo é terno, doce, compreensivo, amigo dos necessitados, dos aflitos, dos que correm perigo. Amado pelo povo de Israel, tornou-se com o passar dos séculos personagem de inúmeras lendas e contos sobre sua coragem e compaixão. Neles aparece milagrosamente, assumindo os mais incríveis disfarces para salvar alguém, para transmitir ensinamentos ou para ajudar quem precisa. Tornou-se para o povo de Israel o símbolo da Redenção futura.

Segundo a tradição, ele está presente em cada circuncisão para testemunhar o cumprimento pelos filhos de Israel da Aliança Sagrada. No Seder de Pessach, a porta é deixada aberta para ele e uma taça de vinho, o Kós Eliyahu, é-lhe especialmente dedicada. Gerações de crianças passam a noite na expectativa de que o profeta Eliahu apareça.
A Torá nada nos diz sobre suas origens, seu nascimento ou sua vida antes de sua repentina aparição. Segundo certas versões talmúdicas ele é descendente de Aaron, outras dizem que é da tribo de Benjamim.

Viveu na época que a Terra de Israel estava dividida em dois reinos, o do norte – o Reino de Israel – e o do sul – o Reino de Judá. E o rei Ah’av, filho de Omri, governava Israel (871-852 a.E.C). Este, segundo a Torá, “fez muito mais para provocar o Eterno D’us de Israel, que todos os outros reis de Israel que o precederam” (Reis I 16:33).
Ah’av, que permaneceu 22 anos no trono, casara-se com Jezebel, filha do rei da Fenícia, sacerdote do Ba’al. Apesar de ter outras esposas, o rei é completamente fascinado por Jezebel. Ela reina tanto sobre o rei como sobre o reino. É ela quem toma as decisões brutais e o induz a trazer a Israel seus ídolos, seus sacerdotes e falsos profetas. Templos pagãos são erguidos e em especial um altar para Ba’al, o maior deus fenício. Finalmente, em desafio a todas as tradições, o rei autoriza a reconstrução da cidade de Jericó, algo que havia sido proibido por Yehoshua. Os filhos do construtor morrem durante a construção da cidade. É neste momento que o profeta Eliahu surge repentinamente no Livro dos Reis. Segundo o Talmud, Elias, o Tishbite, encontra-se com Ah’av, enquanto estes visitam os enlutados, para consolá-lo pela perda dos filhos. Mas enquanto estava na presença do rei, ouve-o declarar que apesar de Israel ter desobedecido as Palavras do Eterno e ter servido ídolos, não haviam-se cumprido os avisos da Torá de que D’us “...  fechará os céus” (Deut.11:17).
As primeiras palavras do profeta na Torá são devastadoras. O rei e a nação que o seguiu, afastando-se de D’us, serão punidas severamente. Eliahu declara: “Viva o Eterno, D’us de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá se não segundo a Minha palavra” (Reis 1 17:1). Uma seca se abateria sobre o Reino de Israel e duraria até o povo voltar ao D’us de Israel.

Após estas palavras, D’us ordena ao profeta que fuja e se esconda perto do riacho de Kerit (identificado às vezes como Wadi Elias), a leste do Rio Jordão. Lá o profeta bebe água do rio e é alimentado a mando Divino por corvos que trazem-lhe diariamente porções de pão e de carne. Mas a estiagem está fazendo Israel sofrer e até mesmo a água do rio Kerit se acaba. Segundo Rashi, neste instante D’us queria que o profeta experimentasse o sofrimento causado pela falta de água e soubesse que D’us também se aflige quando Israel passa fome.

D’us instrui o profeta a ir para Tzorfat, onde viviam uma pobre viúva e seu filho. Ela lhe dará alimento e alojamento até chegar a hora de voltar para Israel. Ao encontrar a mulher, Elias lhe pede um pedaço de pão, mas a viúva reponde que em sua casa não havia comida. Estava prestes a morrer de fome com seu filho e a única coisa que possuía era um punhado de farinha e um pouco de azeite. Eliahu pede-lhe então que use a farinha para fazer um pequeno bolo e que o dê a ele. A viúva obedece e, por intermédio da palavra do profeta, D’us a abençoa com um inexaurível abastecimento de comida: “A farinha na panela não se acabará e o azeite da botija não faltará, até o dia em que o Eterno dê chuva sobre a terra”. É primeiro dos oito milagres que Eliahu realizará em sua vida.

Segundo o Talmud, D’us havia enviado Eliahu para Tzorfat para receber o poder de ressuscitar os mortos e a pobre viúva e seu filho eram o profeta Jonas e sua mãe. Algum tempo mais tarde, após Eliahu ter-se instalado no pequeno ático cedido pela viúva, Jonas adoece e morre. Sua mãe, desesperada, apela para o profeta que toma o menino em seus braços e o leva para o ático onde vivia. Lá implora a D’us pela vida de Jonas e o ressuscita. Ao voltar para a viúva, Eliahu lhe diz: “Vê, teu filho vive” (Reis I 17:23). Ela então responde: “Tu és homem de D’us e a palavra do Eterno em tua boca é verdade”. Jonas tornara-se a prova viva do poder de D’us através de seu profeta.
Após três anos de seca a fome era grave, e D’us, que se condoía com o sofrimento de seu povo, ordenou a Eliahu: “Vá, apareça perante Ahav; então mandarei chuva sobre a Terra” (Reis I 18:1). A Torá então menciona um detalhe surpreendente: o principal assessor do rei Ahav é Ovadia, um homem que “temia muito ao Eterno”. Ovadia, que não fora influenciado pela perversidade do rei e da rainha, ao saber que Jezebel ordenara a morte de os todos profetas de Israel, salvou e escondeu 100 deles, alimentando-os pessoalmente.

Ovadia é a primeira pessoa que Eliahu encontra. Pede-lhe para avisar o rei que se encontrava na cidade e queria falar com ele. Ovadia fica apavorado. Nos três anos que haviam se passado o rei estivera à procura do profeta para matá-lo. Ahav, o rei mais poderoso da região, ordenara que todos os países que tivessem fronteira com Israel ajudassem na busca. E seus monarcas haviam sido obrigados a jurar que desconheciam o paradeiro do profeta. Ovadia temia por sua vida, mas Eliahu o tranqüiliza e jura que aparecerá perante Ahav naquele mesmo dia. Este, então, vai até o rei e lhe comunica que Eliahu estava na cidade. Ao ver o profeta, Ahav declara: “És tu o perturbador de Israel?” (Reis I 18:17).

Elias, que “falava a verdade frente a frente com o poder”, retruca: “Não fui eu quem trouxe problemas para Israel, mas tu e a casa de teu pai, por terdes desrespeitado os mandamentos de D’us e seguido os idólatras de Ba’al”. E para que a chuva caia novamente, diz o profeta, deverão se reunir no Monte Carmel todo Israel e os falsos profetas de Ba’al e Ashtares. Sem saber o intuito de Eliahu e desesperado para que chova, o rei atende sua demanda.

Na frente da enorme multidão, o profeta pergunta por quanto mais tempo Israel ficaria dividido entre duas opiniões? “Se o Eterno é D’us, segui-o; e se é Baal, segui-o!” disse ele (Reis I 28:20). O povo permaneceu em silêncio, enquanto Eliahu afirmava: “Só eu fiquei como o profeta do Eterno”. Os presentes sabiam que outros haviam escapado da fúria de Jezebel, mas ele era o único que agia abertamente enquanto os outros se mantinham escondidos.
É um momento dramático nos séculos de luta entre o monoteísmo dos filhos de Israel e os cultos pagãos que constantemente o desgastavam. Elias então estabelece as condições do grande confronto. Na presença de milhares de israelitas, o profeta ficaria de um lado, sozinho. Do outro, estariam todos os 450 sacerdotes de Ba’al. Cada lado iria sacrificar um touro e colocar os restos do animal em uma altar. Os sacerdotes de Ba’al invocariam o nome de seu deus e Eliahu o seu, “e estejamos de acordo: o deus que responder com fogo, este será D’us” (18:24). Desesperado para que a chuva caísse novamente, o rei Ahav concorda com o confronto.

Os sacerdotes de Ba’al sacrificaram o touro, prepararam o altar e invocaram o nome de Ba’al desde a madrugada até o meio-dia: “Ó, Ba’al, responda-nos!” Não recebendo resposta realizaram a dança da esperança. Enquanto isto, Eliahu os provocava: “Gritem mais alto!.... talvez (seu deus) esteja dormindo e acorde” (18:27). A única resposta era o silêncio total. Desesperados para provar o poder de seu deus, os seguidores de Ba’al passaram a gritar mais alto, e se feriram com facas e lanças. O sangue jorrava de seus corpos, mas ainda não havia resposta. Só ao crepúsculo admitiram a derrota.

É a vez de Eliahu. Ele reconstrói o altar quebrado pelos seguidores de Ba’al em Nome do Eterno, usando doze pedras que representavam as 12 tribos de Israel. Na situação espiritual na qual se encontrava Israel, para que as preces fossem atendidas, eram necessários os méritos dos 12 filhos de Jacó. O altar simbolizava também a necessidade de todas as tribos se unirem para servir o Eterno. Em seguida, o profeta arruma a lenha, sacrifica o touro e pede aos presentes para jogarem por 3 vezes grandes baldes d’água sobre a lenha e também sobre o sacrifício. Desta forma o milagre seria ainda maior, pois o fogo, ao invés de ser apagado pela água, consumi-la-ia.

No instante em que inicia sua prece a D’us, Eliahu é chamado pela Torá de profeta e diz: “Ó Eterno, D’us de Abraão, Isaac e Israel! Que se manifeste hoje que Tu és D’us e que eu sou Teu servo e que conforme Tua palavra fiz todas essas coisas. Responde-me, Ó Eterno, responde-me, para que este povo saiba que Tu Eterno és D’us.” (Reis 18:36-37). Imediatamente dos céus cai um fogo intenso, que consome a oferenda, a madeira e até o altar de pedra.

Neste instante “todo o povo viu e caíram sobre seus rostos e disseram: o Eterno é D’us! O Eterno é D’us!” (Reis 18:39). Implacável contra os que haviam afastado Israel do Eterno e haviam ordenado a morte dos verdadeiros profetas de Israel, Eliahu ordena aos presentes que prendam e matem todos sacerdotes de Ba’al. Nenhum escapa.

Eliahu pede a D’us que a chuva caia enquanto Ahav ainda estava lá, assim o milagre seria completo e o povo seria testemunha de que a salvação viera em conseqüência de sua penitência. Sete vezes Eliahu manda seu servo para as proximidades do mar para ver se avistava alguma nuvem. Na sétima vez o servo informa: “Uma pequena nuvem, tão pequena quanto uma mão humana, está-se levantando ao oeste”. Eliahu avisa Ahav para se apressar para voltar para casa porque a chuva iria cair de forma torrencial. Logo o céu escurece e começa a chuva.

O profeta, levado por uma força sobre-humana, corre na frente da carruagem do rei até o palácio de inverno, em Jezreel. Chegando ao palácio, o rei conta a Jezebel como Eliahu humilhara Ba’al e mandara matar seus sacerdotes. Jezebel, furiosa, não aceita a derrota e manda uma mensagem ameaçadora ao profeta: “Assim me façam os deuses e outro tanto se amanhã a estas hora não puser tua vida como a deles” (Reis I 19:2).

Ao receber o recado, Eliahu foge para salvar sua vida pois não havia recebido a Palavra de D’us. Chega até Be’er Sheva, no Reino de Judá, e em seguida dirige-se sozinho para o deserto. Queria fugir de Jezebel e meditar no Monte Sinai para atrair para ele o espírito da profecia cuja falta sentia, já há alguns dias. Mas, após ter caminhado um dia no deserto, sem comida e bebida, Eliahu cansado e fraco senta à sombra de uma árvore e pede a morte.

Acreditava ter cumprido sua missão após o Nome de D’us ter sido publicamente santificado no Monte Carmel. Entretanto os planos do Eterno para o profeta eram outros. Um anjo o alerta para que coma e beba o que aparecer à sua frente, pois irá percorrer um longo caminho no deserto. Eliahu obedece e anda no deserto durante 40 dias e 40 noites até chegar ao Monte Sinai, o Monte de D’us.

Lá “a palavra do Eterno “veio a ele e disse: “O que fazes aqui, Eliahu?” O profeta responde ter sido “muito zeloso pelo Eterno porque os filhos de Israel deixaram Tua Aliança, derrubaram Teus altares e mataram Teus profetas, e só eu fiquei e buscam a minha vida” (Reis I 19:10). O encontro entre D’us e o profeta Eliahu é marcado pela angústia e a solidão do profeta. O único sentimento que parece tomar conta dele após ter derrotado publicamente Ba’al e ter escapado da morte é o cansaço, uma terrível e desesperadora solidão, uma depressão que o faz pedir a morte. Elias sentia que era o único defensor de D’us. Apesar disso não ser verdade, pois Ovadia salvara os cem profetas, ele somente ousara enfrentar abertamente Jezebel.

D’us então diz para Eliahu que muitos outros sobreviveram. Isto era uma referência aos milhares de israelitas que não haviam-se curvado perante Ba’al. D’us então se revela a ele de forma pessoal. Instrui o amargo profeta a sair da caverna e subir até o Monte Horeb (Monte Sinai) onde ficaria perante o Eterno. Ao fazer isto, Eliahu sentiu um vento muito potente abalar os rochedos, mas a voz da Profecia o avisou que “O Eterno não estava no vento”. Em seguida, a área é sacudida por um terremoto, “mas o Eterno não estava no terremoto” e depois disso vem um incêndio.
Mas Ele tampouco estava no fogo. Finalmente, D’us Se revela a Eliahu com uma voz mansa e suave, que pergunta novamente: “O que fazes aqui, Eliahu?” (Reis I 19:12). O profeta volta a revelar suas inquietudes e sua solidão. D’us ordena que deixe o deserto e volte a seus deveres proféticos, pois havia ainda muito para ser realizado. Ele deve ungir novos reis e seu sucessor será Elisha, filho de Shafat. Ele terá que intervir contra a injustiça cometida contra Navot e, só depois, poderá subir aos Céus. Ele ainda não sabe, mas subirá de forma espetacular e milagrosa.

O Talmud, ao comentar estes acontecimentos, deixa transparecer uma dúvida. Tendo obtido a promessa de que sua vontade ia ser cumprida, tanto em nosso mundo como nos outros, será que Eliahu, em seu zelo e amor pelo Eterno, foi severo demais com o povo de Israel? Por quê? Não haviam os reis deixado de seguir as Leis de D’us e por que o povo não se revoltara contra eles os condenara à fome por três anos? Tão intolerável foi seu rigor que o próprio Eterno interveio para aliviar o sofrimento. Segundo o Midrash, enquanto o profeta estava na caverna, D’us lhe perguntara: “Por que és tão duro com Israel? As nações pagãs, são elas melhores?”

Talvez esta extrema severidade com Israel seja a semente do motivo de suas diversas reaparições. Ele – que se via como o último dos judeus – deverá testemunhar a eternidade de Israel com sua presença toda vez que um menino judeu entrar para a Aliança Sagrada e quando cada família judia celebrar o Seder.

Nenhum comentário:

Postar um comentário